Cana-de-açúcar em Goiás

Antônio Pasqualetto*

De acordo com dados da Seplam 2004, no Estado de Goiás, o setor industrial em têxteis, couros e móveis responde por 5% do PIB e por 24% dos empregos. O pólo farmacêutico, com 14% do PIB e 8,8% dos empregos e o metal-mecânico com 10,8% do PIB e 8,8% dos empregos. A pergunta que não quer calar é qual o impacto da cana-de- açúcar no Estado de Goiás?

Quando se fala em quem são os portadores de futuro em Goiás, basicamente dois setores se destacam: biotecnologia e softwares. É claro que a biotecnologia tem importante papel no avanço da agricultura e em especial na cultura da cana-de-açucar e os softwares cumpriram seu papel de cada vez mais, automatizar e tornar mais eficiente a produção agrícola e a gestão e planejamento das propriedades rurais.

No tocante ao avanço do setor sucroalcooleiro, já estão implantadas 16 usinas e há 18 pedidos de implementação em tramitação. Estima-se que em um período de 10 anos possa haver mais de 100 usinas em operação no Estado de Goiás e previsões mais entusiasmadas projetam para até 150 usinas em não mais que 20 anos. Isto colocaria Goiás na 2ª. posição entre os estados produtores de energia da cana-de-açucar, atrás apenas de São Paulo.

Há vários aspectos a serem considerados: econômico, social, ambiental, dentre outros.

Do ponto de vista econômico, é inegável que se somos a 9ª. Economia brasileira dentre os estados da Federação. Fatalmente, a vinda das usinas para Goiás e o incremento em diferentes setores agregados podera nos conduzir a 7ª. ou 6ª. economia. Nossa posição geográfica, condições de clima e solo, permitem a expansão da cultura de forma extensiva e moderna, sem grandes investimentos em infraestrutura de escoamento das produções. A construção do alcoolduto, concretiza a aproximação do sudeste e conseqüentemente do Mercosul.

Do ponto de vista social, há muito que se avançar. A cultura ainda utiliza mão-de-obra temporária em épocas de plantio e colheita. Além disto, ainda perdura a queima da cana-de-açúcar como método para colheita, o que conduz a situação degradante das condições de trabalho. Há que se pensar não apenas avanços na legislação como estímulo ao processo de mecanização da colheita, sem necessidade da queimada, bem como alternativas de aproveitamento da mão-de-obra substituída pelas colheitadeiras mecânicas, que chega a ordem de 70 a 80 trabalhadores/máquina. A utilização deste potencial humano em atividades paralelas ou mesmo na entressafra não constitui-se apenas uma atitude de perenidade do emprego, mas uma responsabilidade social de todo empregador.

Do ponto de vista ambiental há que se considerar solo, água, ar como fatores do meio físico, fauna e flora como fatores do meio biótico e os aspectos antrópicos como fatores do meio sócio-econômico. Quanto ao último, espera-se que a “mais valia” de acordo com Marx não seja motivo único de atuação empresarial, mas haja capacidade de espírito solidário, humano e de segurança do trabalho.

No aspecto solo, se considerarmos que uma usina de cana-de-açúcar de pequeno a médio porte processa em média 1 milhão de toneladas/ano, depende de aproximadamente 10.000 ha, ou mais ou menos 2.000 alqueires goianos com produtividade acima de 80 toneladas/ha/ano. Estima-se que no Estado de Goiás sejam 20 milhões de ha de pastagens degradadas. Logo, se forem 50 usinas podesse chegar de 500 mil a até 900mil ha, dependendo do porte das mesmas.Se forem 100 usinas, até 1 milhão e 800 mil ha e se forem 150 usinas, não utrapassariam 2 milhões de 700 mil ha. É claro que não se trata de uma simples substituição de áreas de pastagens degradadas por cana-de-açúcar, até porque nem todas as áreas de pastagens tem aptidão de solo para cultivo da cultura.

Então pergunta-se por onde a cana-de-açúcar chegará ao Estado de Goiás? Considerando que o valor agregado é superior ao da soja, fatalmente ocupará áreas que hoje são redutos da soja, deslocando-a para áreas que atualmente são de pastagens e por sua vez, as pastagens pressionarão áreas do norte e avançarão sobre resquícios de cerrado e sobre a floresta amazônica.

Neste sentido, a bacia hidrográfica do Rio Paranaíba, que compreende a região sul e sudoeste será a que receberá maior número de projetos de usinas. Os produtores de soja, serão conquistados pelo aspecto financeiro pois, em média 1ha de soja rende entre 7 a 10 sacas de lucro, ou seja, 200 a 300 reais/ha, enquanto a mesma área em arrendamento a cana-de-açúcar gera lucro de 10ton/ha/ano, ao preço de R$ 45,00/ton, permite R$450,00/ha/ano. Traduzindo-se a alqueire goiano, a receita anual da soja fica entre R$ 1.000,00 a 1.500,00/alqueire, enquanto a cana-de-açúcar chega, somente com arrendamento (sem o esforço do cultivo) a aproximadamente R$2.200,00/ha/ano. E se ainda assim, as lembranças do cultivo da soja remeterem o produtor ao saudozismo, é bom lembrar que a própria cana-de-açúcar necessita que aproximadamnete 25% de sua área tenha rodízio anual com a cultura da soja. Ou seja, a cada 4 ou 5 anos a soja revitaliza-se o solo em áreas de cultivo de cana para reiniciar nova etapa.

No aspecto água, a lavoura necessita mais ou menos 400L para produzir 1 Kg de matéria seca, valores similares a outras culturas como a própria soja. Não está na lavoura o grande consumo de água, mas no processo industrial. Se utilizarmos como exemplo uma usina que processa 1 milhão de ton/ano, a demanda é de aproximadamente 300m3/hora. Sendo a jornada de trabalho de 10 h, totaliza consumo de 3.000 m3/dia. O maior desafio é adequar a distribuição das usinas no estado de Goiás em função da disponibilidade hídrica, não apenas em função da área de solo para produção que atenda a capacidade de processamento industrial, pois se o ciclo na lavoura se dá de maio a novembro, na indústria coincide com a estação seca, onde a vazão dos cursos d´água chega a reduzir drasticamente.

Para ilustrar, o Rio meia ponte, tem amplitude de vazão entre o período chuvoso e a época de seca de 84%. Além disto, 1000kg de cana de açúcar geram em média 90L de álcool, 260kg de bagaço e 650L de vinhaça, somente a vinhaça responde por 65% deste total. Pode-se afirmar que o álcool não seria principal produto e sim um subproduto, pois a vinhaça corresponde a 10 vezes esta produção e seu destino como efluente pode desencadear sérios problemas de contaminação das águas. Se por um lado é excelente fertilizante, dada a riqueza de potássio, também, se não bem empregada, contamina águas superficiais e subterrâneas.

Esta mesma indústria que processa 1 milhão de toneladas/ano pode produzir 90.milhões de litros de álcool e gerar energia a partir do bagaço que abastece uma cidade de aproximadamente 60.000 hab, com aproximadamente 20MW. Uma tonelçada de cana equivale a substituição de 1,2 barril de petróleo. Considerando o potencial brasileiro da ordem de 13.400MW, possibilitaria a redução das emissões anuais de 13 bilhões de metros cúbicos de gases de efeito estufa, em relação aos uso de combustíveis fósseis. Ainda agrega-se o potencial de obtenção de créditos de carbono pela utilização do bagaço que de resíduo se transformou em produto.

No aspecto ar, o clima seco do centro oeste, não pode se tornar mais árido por excesso de demanda de recursos hídricos e carência de precipitações se não soubermos estocar a água no perfil do solo para manter a regularidade de vazão dos cursos hídricos. Afora isto, a queimada da cana-de-açúcar para colheita é prática arcaica e o lançamento de fumaça e material particulado podem não apenas tornar o ar de pior qualidade, mas potencializar os efeitos danosos sobre a saúde pública local. Um política de substituição da prática por técnicas mecanizadas são bem vindas.

Quanto a fauna e flora, é inegável que a padronização dos ambientes com monoculturas desencadeia ações ambientais negativas e em não sendo possível a diversidade nos ambientes, pelo menos que a prática de rotação de cultura, cultivo verde, culturas em faixas, dentre outros posam mitigar o impacto negativo.

Então, o que fazer diante o exposto? É papel dos gestores públicos disciplinar o desenvolvimento do Estado e municípios. Que a cana está chegando com força ninguém questiona. Compete aos órgãos disciplinadores e aos próprios usineiros, ações que permitam a convivência harmoniosa do setor com sociedade goiana e o meio ambiente. Sugere-se dentre muitas ações:

a) Zoneamento ecológico-econômico do estado de Goiás
b) Sistema integrado de gerenciamento de setor sucro-alcooleiro
c) Regras para os recursos hídricos como revisão dos critérios de outorga, reuso da água no processo industrial e uma rede de monitoramento de recursos hídricos
d) Aprovar lei estadual que aborde aspectos como: manejo da cultura, redução gradativa do uso da queimada, um modelo social que estabeleça parceria de 30% com pequenos produtores e distância mínima entre usinas. Neste último quesito, foi proposto fórmula que necessita maiores estudos, pois não conhece a disponibilidade hídrica de cada manancial. De qualquer forma é um começo de discussão: Distância mínima (Raio em Km) = Raiz Quadrada (5 X Área Plantada (ha) / 314) x fator de correção (1,4)
e) Implantação do ICMS ecológico para preservar e estimular manutenção de áreas ímpares.
f) Inovação e conhecimento por meio de pesquisas e fundo de financiamento da fundação de amparo a pesquisa no Estado de Goiás.
g) Implantação dos comitês de bacia hidrográficas como órgãos consultivos e deliberativos na gestão dos recursos hídricos.

Por fim, a cana-de-açúcar é bem vinda, especialmente como alternativa limpa de energia, mas não deva ser a única e exclusiva. Deve sim, em conjunto com o Biodiesel, serem energias em processo de transição até que possamos desenvolver melhor a utilização da energia solar, eólica e outras fontes de energia limpa, desafogando a utilização do solo e da água, indispensáveis à produção de alimentos para a espécie humana. Caso contrário, pelas leis da economia, “a escassez gera valor” e não queremos ser reféns da carência e de preços elevados em recursos hídricos e alimentos.

(setembro/2007)


*Antônio Pasqualetto é engenheiro agrônomo, professor-doutor e coordenador do curso de Engenharia Ambiental da Universidade Católica de Goiás e coordenador da área de Meio Ambiente do Centro Federal de Educação Tecnológica.É autor de livros e artigos na área ambiental (pasqualetto@ucg.br)