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QUEM FOI QUE INVENTOU O CARNAVAL?

João Oliveira Souza*

"Quem foi que inventou o Brasil / Foi seu Cabral, foi seu Cabral / No dia vinte dois de abril / Dois meses depois do Carnaval"
(Lamartine Babo, 1934, músico)


Quem foi que inventou o carnaval? A mistura da tradição européia com os ritmos musicais dos africanos criou no Brasil um dos maiores espetáculos populares do mundo. O carnaval nasceu no Egito, passou pela Grécia e por Roma, foi adaptado pela Igreja Católica e desembarcou aqui no séc. XVII, trazido pelos portugueses.

Com Hitória do Brasil, Lamartine Babo (1904-1963) fez mais do que a grande parada carnavalesca de 1934: deu uma definição clássica da festa e do país. O carnaval em sua plenitude é a fusão da tradição européia com a batucada africana. em nenhum outro lugar, ele adquiriu a dimensão que alcançou em nosso país. Durante quatro dias, a festa rola em todo país e os foliões se entregam ao espetáculo que seduz, deslumbra os estrangeiros e desfila as beldades femininas e masculinas. Essa folia toda vem do inconsciente dos povos, desde os rituais da fertilidade e as festas pagãs nas colheitas. Podemos encontrar estas festas às celebrações antigas que se faziam à deusa Ísis e o touro Ápis, no Egito, e à deusa Herta, dos teutônicos, passando pelos rituais Dionísiacos gregos e pelos Bacanais, Saturnais e Lupercais, nas suntuosas orgias dos povos romanos.

No século VI, a Igreja Católica adotou essas festas libertárias que invertiam a ordem do cotidiano, para domesticá-las. Juntou todas na véspera da Quaresma, como uma compensação para a abstinência que antecede a Páscoa. O Carnaval, então, se espalhou no mundo, no Brasil chegou no século XVII.

Não se sabe ao certo qual a origem da palavra carnaval. Para alguns etimólogos essa palavra se aplicava à Terça-feira gorda, a partir de quando a Igreja Católica proibia o consumo de carne. Outros apontam sua origem da palavra latina carnelevamen, que significa "adeus carne". Essa palavra pode ser interpretada também como carnis levamen, "prazer da carne", que marcam os momentos prazerosos que antecedem o período da quaresma, que é um período de abstinência. A explicação sobre a origem do carnaval tem controvérsias, mas tem sido atribuída às festas da antigüidade clássica e Idade Média.

Em Roma, comemoravam-se as Saturnais de 16 a 18 de dezembro, para a glória do deus Saturno. Tribunais e escolas fechavam as portas, escravos eram alforriados e dançava-se pelas ruas. A abertura da festa era um cortejo de carros imitando navios, com mulheres e homens nus dançando. No dia 15 de fevereiro, comemoravam-se as Lupercais, dedicados à fecundidade. "Os lupercos, sacerdotes de Pã, saiam pelados, banhados em sangue de cabra, e perseguiam os transeuntes, batendo-lhes com uma correia" (Revista Superinteressante ano 9 n.º 2 p.22). Em março, os Bacanais, deus grego Baco e Dionísio deus romano, celebrando a primavera inspirados por Como e Momo.

Procurando assumir o controle dessas festas, a Igreja Católica buscou abolir a permissividade dos carnavais. Na Idade Média Tertuliano, são Cipriniano, são Clemente de Alexandria e o papa Inocêncio II foram grandes inimigos do carnaval mas, no séc. XV, o papa Paulo II foi tolerante e chegou a autorizar o corridas de cavalos, carros alegóricos, batalhas de confetes, corridas de corcundas, lançamento de ovos, água e farinha e outras manifestações populares, dando-lhe um sentido litúrgico religioso.

Na Rússia, a Maslenitsa festa que encerra o inverno, com corridas de esqui, patinação, muita vodka e danças. "No carnaval de Colônia, na Alemanha, as mulheres armam-se com tesouras e saem pelas ruas para cortar as gravas dos homens. Em Veneza, a tradição consagrou os fogos de artifícios e foliões mascarados. Na Bolivia,os mineiros de Oruro veneram a mãe-terra, Pachamama, dançando fantasiados de demônios. Em New Orleans, nos EUA, pessoas invadem as ruas do French Quarter, na Terça-feira atrás de músicos que tocam toda a noite" (Superinteressante ano 9 n.º 2 p.22).

No Brasil colonial, no séc.XVII o entrudo português constituiu a forma mais comum de brincar o carnaval. Os foliões se lambuzavam com caças de farinha e bexigas d'água. O primeiro baile aconteceu em 1840, no Hotel Itália, no Rio. Em 1845, os ricos aderiam à polca tcheca e os negros dançavam jongo. Em 1848, o sapateiro português José Nogueira de Azevedo Prates, saiu pelas ruas do rio tocando bumbo. Deu origem aos primeiros blocos de rua.

Os cordões começaram com as sociedade carnavalescas, em 1866. Na Bahia, em 1895, nascia o primeiro afoxé: estava inventada a batucada. Depois da Guerra dos Canudos, em 1897, uma gentarada foi morar no Morro da Saúde, criando a primeira favela do Rio. O primeiro samba, foi escrito em 1917: pelo telefone, de Donga. O Rei Momo foi instituído pelo jornal carioca A Noite, em 1933, como símbolo do Carnaval. O primeiro Rei Momo foi o compositor Silvio Caldas. Em 1935, o desfile das escolas de samba foi legalizado pela prefeitura do Distrito Federal. Com o rádio, a festa difundiu-se e profissionalizou-se. Com a televisão, virou indústria.

O antrópologo Roberto DaMatta, autor de Carnavais, Malandros e Heróis (Rio, Ed.Zahar,1979), define a folia como um rito de inversão, que subverte as hierarquias cotidianas: transforma pobres em faraós, ricos em mascarados, homens em mulheres, recato em luxúria. é uma compensação da realidade.


*João Oliveira Souza é professor-mestre do Departamento de Filosofia e Teologia da UCG

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