Universidade e Sociedade
Dom Tomás Balduíno vai receber
título de Honoris Causa da UCG

(11/10/2006) - Bispo da Diocese da Cidade de Goiás por 31 anos e conselheiro permanente da Comissão Pastoral da Terra (CPT), que ajudou a criar e presidiu por seis anos, dom Tomás Balduíno vai receber o título de "Doutor Honoris Causa" da Universidade Católica de Goiás.

A decisão, por unanimidade, foi do Conselho de Ensino, Pesquisa, Extensão e Administração (Cepea) da instituição, em sua sessão no final de setembro, e a entrega solene está marcada para o dia 8 de novembro deste ano.

Na justificativa, sua luta pelo reconhecimento, conquista e garantia dos direitos de todas as pessoas, pela participação popular na construção de uma sociedade cada vez mais justa, eqüitativa e solidária, e pelos povos indígenas e a rica diversidade de camponeses.

As palavras de dom Pedro Casaldáliga reforçaram essa decisão: "O meu irmão dom Tomás esteve e continua sempre presente em 'todas': durante a Ditadura Militar, de triste memória, e agora na pseudodemocracia neoliberal, nas horas de exaltação e nas horas de martírio, ele vem sendo presença e ação indispensáveis, de resistência e de alternatividade. Com o 'grupo-não grupo' de bispos e pastores. Nos momentos decisivos da CNBB ou do Vaticano aqui no Brasil, em nossa América. Em campanhas eclesiais e sociais. Nos processos aos nossos teólogos ou a irmãos bispos. Na programação dos grandes documentos proféticos. No apoio à teologia da libertação, às Comunidades Eclesiais de Base, à leitura popular da Bíblia, aos Movimentos Populares de Direitos Humanos, Sindicalistas, de Fé e Política e tantos outros".

Quem é
Dom Tomás Balduíno nasceu em Posse, Goiás, no dia 31 de dezembro de 1922, filho de José BalduÍno de Sousa Décio, goiano, e de Felicidade de Sousa Ortiz, paulista. Seu nome de batismo é Paulo Balduíno de Sousa Décio. Foi o último filho homem de uma família de onze filhos, três homens e oito mulheres. Ao se tornar religioso dominicano recebeu o nome de Frei Tomás, como era costume. Até os cinco anos de idade viveu em Posse. Depois a família migrou para Formosa, onde seu pai se tornou Promotor Público, depois Juiz, função na qual se aposentou.

Fez o Seminário Menor - Escola Apostólica Dominicana - em Juiz de Fora, MG; os estudos secundários no Colégio Diocesano, dirigido pelos irmãos maristas, em Uberaba, MG; Filosofia em São Paulo e Teologia em Saint Maximin, na França, onde também fez Mestrado em Teologia.

Em 1950, lecionou Filosofia em Uberaba. Em 1951 foi transferido para Juiz de Fora como vice-reitor da então Escola Apostólica Dominicana e lecionou Filosofia, na Faculdade de Filosofia da cidade.

Em 1957, foi nomeado superior da missão dos dominicanos da Prelazia de Conceição do Araguaia, Estado do Pará, onde viveu de perto a realidade indígena e sertaneja. Na época a Pastoral da Prelazia acompanhava sete grupos indígenas. Para desenvolver um trabalho mais eficaz com os índios, fez Mestrado em Antropologia e Lingüística, na Universidade de Brasília (UnB), que concluiu em 1965. Estudou e aprendeu a língua dos índios Xicrin, do grupo Bacajá, Kayapó.

Para melhor atender a enorme região da Prelazia que abrangia todo o Vale do Araguaia paraense e parte do Baixo Araguaia mato-grossense fez o curso de piloto de aviação. Amigos solidários da Itália o presentearam com um teco-teco com o qual prestou inestimável serviço, sobretudo no apoio e articulação dos povos indígenas. Também ajudou a salvar pessoas perseguidas pela Ditadura Militar.

Em 1965, ano em que terminou o Concílio Ecumênico Vaticano II, foi nomeado Prelado de Conceição do Araguaia. Lá viveu de maneira determinante e combativa os primeiros conflitos com as grandes empresas agropecuárias que se estabeleciam na região com os incentivos fiscais da então Sudam e que invadiam áreas indígenas, expulsavam famílias sertanejas, os posseiros, e traziam trabalhadores braçais de outros Estados, sobretudo do Nordeste brasileiro, que eram submetidos, muitas vezes, a regimes análogos ao trabalho escravo.

Nomeado bispo diocesano da Cidade de Goiás em 1967, nesse ano foi ordenado bispo e assumiu o pastoreio da Diocese, onde permaneceu durante 31 anos, até 1999 quando, ao completar 75 anos, apresentou sua renúncia e mudou-se para Goiânia. Seu ministério episcopal coincidiu, a maior parte do tempo, com a Ditadura Militar (1964-1985).

Na Diocese de Goiás, dom Tomás procurou adequá-la ao novo espírito do Concílio Ecumênico Vaticano II e de Medellín (1968). Por isso sua atuação, ao lado dos pobres, no espírito da opção pelos pobres, marcou profundamente a Diocese e seu povo. Lavradores se reuniam no Centro de Treinamento, onde dom Tomás morava, para definir suas formas de organização e suas estratégias de luta.

Esta atuação provocou a ira do governo militar e dos latifundiários que perseguiram e assassinaram algumas lideranças dos trabalhadores. Em julho de 1976, dom Tomás foi ao sepultamento do padre Rodolfo Lunkenbein e do índio Simão Bororo, assassinados por jagunços na aldeia de Merure, Mato Grosso. Em sua agenda estava programada uma outra atividade. Soube depois, por um jornalista, que durante essa atividade estava sendo preparada uma emboscada para eliminá-lo.

Alguns movimentos nacionais, como o Movimento do Custo de Vida e a Campanha Nacional pela Reforma Agrária, encontraram apoio e guarida de dom Tomás e nasceram na Diocese de Goiás. Ele foi personagem fundamental no processo de criação do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), em 1972, e da CPT, em 1975. Nas duas instituições, ele sempre teve atuação destacada, tendo sido presidente do CIMI, de 1980 a 1984, e presidente da CPT, de 1999 a 2005. A Assembléia Geral da CPT, em 2005, o nomeou Conselheiro Permanente.

Depois de deixar a Diocese, além de ser Presidente da CPT, tem desenvolvido uma extensa e longa pauta de conferências e palestras em Seminários, Simpósios e Congressos, tanto no Brasil quanto no exterior. Por sua atuação firme e corajosa recebeu diversas condecorações e homenagens Brasil afora. Em 2002, a Assembléia Legislativa do Estado de Goiás concedeu-lhe a medalha do Mérito Legislativo Pedro Ludovico Teixeira, e a Câmara Municipal de Goiás, o título de Cidadão Goianiense.

Foi designado, em 2003, membro do Conselho Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, CDES, do Governo Federal, cargo que deixou por sentir que pouco ou nada contribuía para as mudanças almejadas pela Nação brasileira. Foi também nomeado membro do Conselho Nacional de Educação.

Motivações
A proposição do título se baseou no fato de dom Tomás ter sido uma pessoa que integrou de forma praticamente perfeita sua missão religiosa e episcopal e sua cidadania. "Fiel seguidor de Jesus Cristo, sempre ligou o anúncio da Palavra de Deus com a realidade do povo que assumiu como seu próximo. As Boas Novas proclamadas por dom Tomás sempre foram e continuam sendo destinadas aos pobres do mundo, da sociedade brasileira, de cada comunidade local com quem compartilha a vida. E Boas Novas que revelam Deus presente na vida, fonte de esperança, luz para caminhar com segurança. Um Deus que, na vida de Jesus, deixou claro que não substitui a ação organizada dos seres humanos no enfrentamento dos problemas; pelo contrário, está sempre ao lado dos excluídos e marginalizados para animá-los a se levantarem para construir a história", conforme o documento da Comissão Dominicana de Justiça e Paz.

Outra dimensão fundamental da vida e da prática de Dom Tomás que o faz merecedor do título é sua coerência na ação política. "Ele foi, e continua sendo um goiano e um brasileiro sempre atento e crítico em relação a toda forma de política marcada pela dominação; e sempre atento e ativo em favor de práticas políticas efetivamente democráticas".

Igualmente, "o reconhecimento, a conquista e a garantia dos direitos de todas as pessoas foram e são o centro motivador de seu engajamento social e político. A participação popular na construção de uma sociedade cada vez mais justa, eqüitativa e solidária foi e é o centro de sua prática de educador e militante político. Os povos indígenas e a rica diversidade de camponeses foram e são, com certeza, seu amor maior, mas em seu coração têm lugar todos que lutam por um Brasil para e com todas e todos os brasileiros".

Testemunhos
Muitas pessoas, em âmbito local, regional, nacional e internacional, testemunhariam positivamente à outorga do título a dom Tomás. Eis alguns, extraídos do livro "Uma vida a serviço da humanidade - Diálogos com dom Tomás Balduíno", da Edições Loyola e Editora Rede:

"Os seguidores e seguidoras de Jesus Cristo têm em dom Tomás um exemplo de fidelidade à missão evangelizadora da humanidade, abrindo caminhos sempre novos no rumo de sociedades humanas que se aproximem do ideal do Reino de Deus. Os goianos e goianas, os brasileiros e brasileiras têm em dom Tomás um exemplo de coerência política a serviço da justiça e do direito de todas as pessoas, e de modo especial das mais empobrecidas", afirma o professor Ivo Poletto.

Para José Balduíno de Souza Décio, "o nosso tio Paulo, que o mundo adotou como Tomás, é, para nós, da sua família, o testemunho vivo de que a árdua caminhada pela liberdade e pela democracia será sempre atrelada à ternura e à bondade de coração. Ele deu voz aos emudecidos pela intolerância e, ao fazê-lo, revelou toda sua serve compassiva e generosa, conduta que nos serve de exemplo e esperança".


Foto: Eurípedes Júlio