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UNIVERSIDADE CATÓLICA DE GOIÁS

A FORMAÇÃO DO ESPAÇO URBANO X MOBILIDADE DA POPULAÇÃO

 

 

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PROJETO

DEPARTAMENTO DE ARTES E ARQUITETURA - ESCOLA PROF. EDGAR A. GRAEFF

A FORMAÇÃO DO ESPAÇO URBANO X MOBILIDADE DA POPULAÇÃO

 

4. O URBANISTA DA NOVA CAPITAL

Attílio Corrêa Lima, nasceu em Roma em 1901, filho de escultor brasileiro que na época havia recebido prêmio de estágio na Itália pela Escola Nacional de Belas Artes, tendo a família retornado ao Brasil pouco tempo depois. Na adolescência cursou a Escola de Belas Artes como aluno livre, diplomando-se engenheiro-arquiteto em 1925, pela mesma escola.
Attílio havia trabalhado inicialmente na área de paisagismo, tendo-se classificado em 2o lugar no concurso para o ajardinamento da ponta do Calabouço, no centro do Rio de Janeiro. Integrou logo depois a equipe da Diretoria de Obras Públicas do Distrito Federal. (ACKEL, 1996)
Em 1926, ganhou da Escola de Belas Artes o "Prêmio de Viagem ao Exterior", que consistia em estágio de aperfeiçoamento profissional em Paris.
Attílio C. Lima realizou seus estudos entre 1927 e 1930. Foi o primeiro brasileiro a apresentar tese ao Institut d'Urbanisme de L'Université de Paris. O famoso Instituto, que se constitui numa das principais escolas de urbanismo do mundo, surgiu em 1924 como continuidade de l'Ecole des Hautes Etudes Urbaines - integrado por professores como Alfred Agache, Leon Janssely, Henry Prost e J.M.Greber, entre outros. A maioria era integrante da Société Française des Urbanistes-SFU, criada em 1913. O Instituto destacou-se ainda com a publicação de La Vie Urbaine, órgão privilegiado de publicação dos trabalhos de l'I.U.U.P., em particular de seus estudantes, incluindo-se a tese de Attílio C. Lima.
Em 1930, Attílio C. Lima defende tese intitulada "Avant-projet d'aménagement et extension de la ville de Niteroi-au-Brésil", sob orientação de Henry Prost, professor dedicado à técnica de planos e construção de cidades, com experiências no Marrocos.
A segunda parte de sua tese apresenta uma exaustiva pesquisa da evolução histórica do meio geográfico da cidade de Niterói, sua estrutura e propostas de organização, insistindo no caráter imprescindível da construção de uma ligação Rio-Niterói, através de túnel ou ponte, conjugada com meio de transporte contínuo, que evitaria a congestão da capital.
Como aluno, seguiu modelos relacionados com trabalhos profissionais dos professores, realizados em cidades do interior da França, alguns até vencedores de concursos internacionais, haja visto que o urbanismo francês se destacava entre os mais avançados do mundo.
Em 1929, Attílio C. Lima trabalhou com o professor Alfred Agache em Paris, tendo esta relação sido muito útil ao prof. Agache na realização do Plano de Remodelação e Embelezamento do Rio de Janeiro.
Muitas vezes citado por Attílio C. Lima em seus trabalhos profissionais, o urbanismo inglês de Raymond Unwin, significou importante influência na sua formação, que pode ser observado comparando-se Letcworth e Goiânia. (ACKEL, op. cit.)
Conforme o relato do professor Edgar Graeff referindo-se ao partido urbanístico adotado por Attílio C. Lima para a nova capital, onde "Attílio revela francamente suas fontes de inspiração e seu desejo de grandeza".
"Quando o arquiteto aponta Versalhes, Karlsruhe e Washington como fontes de inspiração da faceta monumental da cidade em gestação, busca apoio em uma arquitetura que teve seus momentos de esplendor no século XVIII, como expressão arquitetônica da monarquia absoluta". (GRAEFF,1985, pp.12-16)

Ao findar a década de 20, os arquitetos brasileiros já se colocavam de frente ao problema da resposta da arquitetura aos novos programas e novas possibilidades. "O modernismo brasileiro foi interrogar o passado, a tradição, em busca de elementos para construir uma imagem que afinal desse sentido ao Brasil moderno". (MARTINS, 1992)
A produção cultural modernista nacional procura inserir o país nas discussões internacionais, assimilando o modo de pensar das vanguardas européias, envoltas nas questões do pós-guerra, chegando ao final da década em meio a transformações políticas e econômicas profundas.
Após a Revolução de 30 com o país sob forte ditadura, os edifícios públicos tomaram formas monumentais, expressando os órgãos que abrigavam. Nessas edificações observa-se a expansão das funções do Estado, que nasce e se consolida num "sistema de edificações públicas".
Na época, são instruídos os escritórios técnicos a contribuir para soluções modernizadoras e de aperfeiçoamento da arquitetura, buscando fundamentalmente atributos técnicos, funcionais e simbólicos das edificações "como recursos adicionais de renovação dos métodos de trabalho na administração pública e de exaltação progressista das realizações do governo". (LOPES, 1993, p.28)
Devemos observar que a chegada ao Brasil, em 1923, do arquiteto Gregori Warchavichik, representa a introdução da arquitetura moderna no País. Nessa época, encontravam-se os arquitetos brasileiros, em sua maioria, ainda envolvidos em cópias e adaptações de projetos monumentais neoclássicos, apesar de já haver alguma discussão interna sobre o caráter da produção artístico/arquitetônica.
De formação tradicionalista, Warchavichik vinha de um ambiente clássico dominado pelo arquiteto italiano Marcelo Piacentini, porém influenciado por Adolf Loos e movimentos de vanguarda como a Bauhaus. Ao publicar no jornal Correio da Manhã o artigo "Acerca da arquitetura moderna" , traz para a arquitetura brasileira o debate em curso na Europa.
A produção da arquitetura moderna buscava os métodos da racionalidade, a precisão numa idéia de arquitetura funcional, objetiva, lógica, uma conduta estranha ao repertório estético-artístico.
Em estudo sobre a obra de Lúcio Costa e o discurso do modernismo brasileiro o Prof. Carlos Alberto Martins conta que o momento-chave da ruptura ocorre com o concurso da Sociedade das Nações, em 1928, quando Le Corbusier teve seu projeto recusado. O poeta Karl Teize escreveu texto de crítica extremamente violento contra Le Corbusier, acusando-o de ter traído os princípios da arquitetura moderna. Como resposta, Le Corbusier publica "Em defesa da Arquitetura", uma veemente declaração de novos rumos para a arquitetura. (MARTINS, 1987)
Ao visitar o Brasil, em 1929, Le Corbusier está envolvido nessa polêmica, e talvez por isso, conforme nos diz Carlos Martins, "a opção da viagem à América Latina é também a dedicar-se aos projetos que ninguém pediu". (MARTINS, op.cit.)

No início das investidas dos arquitetos brasileiros na arquitetura moderna, portanto, Attílio C. Lima estava vivendo sua pós-graduação em Paris. Participando das transformações da arquitetura em um outro ambiente, inclusive no Congresso Internacional de Urbanismo em Paris no ano de 1928, e afastado das discussões que passam a envolver principalmente os arquitetos cariocas
Ao ser contratado para o projeto da nova capital de Goiás, Attílio C. Lima produz relatório preliminar afirmando seu pensamento:
"Da topografia tiramos partido também para obter efeitos de perspectiva, com o motivo principal da cidade que é o centro administrativo. Domina este a região e é visto de todos os pontos da cidade e principalmente por quem nela chega. As três avenidas mais importantes convergem para o centro administrativo, acentuando assim a importância deste em relação à cidade, que na realidade deve-lhe a sua existência". (LIMA,1933)

Attílio realizou ainda estudos para a Cidade dos Motores FNM no Rio de Janeiro; o Plano de Volta Redonda (1941); o Plano Urbanístico de Recife (1942); conjuntos residenciais da Várzea do Carmo e Heliópolis em São Paulo; a Estação de Hidroaviões no Rio de Janeiro, e outros projetos, tendo falecido prematuramente em decorrência de acidente aéreo na Baía de Guanabara em 27 de agosto de 1943.